A primeira vez que Rubens Matuck viu a Amazônia foi da Chapada dos Guimarães, no Mato Grosso, em 1986. Do alto de um platô, o artista alcançou “uma vista de avião” da mata. Era a primeira viagem de reconhecimento da natureza brasileira que fazia – hoje elas somam cerca de 80. Matuck acompanhava uma professora de biologia que conhecia desde criança e funcionava como uma espécie de assistente, na qualidade de botânico amador. Seus vastos conhecimentos sobre plantas tinham sido adquiridos em parte na mais improvável das locações: as ruas da cidade
de São Paulo.
Sua viagem seguinte foi para a Amazônia propriamente dita, ainda no Mato Grosso, mas um pouco mais ao norte. Desde então, esteve na região mais de dez vezes, com imersões em aldeias indígenas e longos percursos fluviais. Foram sete dias, por exemplo, para chegar até São Gabriel da Cachoeira, 860 km a noroeste de Manaus, na margem esquerda do rio Negro, “onde pedras enormes emergem das águas”. Outra vez, de Cruzeiro do Sul, no oeste do Acre, chegou pelo rio Jurá ao Peru para conhecer os ashaninkas, que vivem em movimento na fronteira com o Brasil. Em viagens ao coração da selva paraense, conviveu com auaretés
e panarás, entre outros povos.
Matuck leva consigo grandes cadernos nos quais registra aquilo que vê: paisagens, animais, plantas, aldeias e objetos. Com o tempo, o material de trabalho foi se reduzindo ao essencial e hoje as linhas são traçadas com esferográfica e os volumes e extensões pintados com aquarela. Nesses livros de artista, gosta da idéia de trabalhar a imagem como informação – tão importante quanto a palavra. Talvez por isso lhe interesse tanto tentar recuperar, de uma forma simbólica,
“o grande livro de viagem que nunca foi escrito”: os relatos orais que os povos indígenas transmitiram de geração para geração sobre seus trajetos nômades pelo Brasil e vizinhanças.
Quando viaja, anota informações obtidas em conversas, descreve situações, registra observações e leituras, mas, sobretudo, deixa um testemunho visual. Os cadernos tratam de questões climáticas, culturais, ecológicas, medicinais, do estudo de espécies animais e vegetais isoladas, do artesanato com plantas. Chegam ao fim das viagens acompanhados de pequenas amostras de sementes, folhas, flores e insetos
(“mas nunca peguei um bicho vivo”).
A afeição pelo caderno como suporte tem suas razões sentimentais. Uma remonta a seu trabalho de conclusão
de curso na Faculdade de Arquitetura, que foi sobre a história
da escrita. “O caderno de viagem nada mais é do que um livro como era em suas origens. Com esse formato, a escrita passou a ser um fórum individual”, diz ele. Além disso, os cadernos que Matuck leva nas viagens são confeccionados à moda oriental por sua mulher, a curadora Rosely Nakagawa. As folhas de papel de aquarela de aparência fibrosa são costuradas à mão e um laço de fita preta faz o fecho.
Os cadernos, muito bonitos, são os produtos mais imediatos da acumulação de idéias e conhecimentos que ocorre durante a viagem. A única reprodução direta desse trabalho é o livro Cadernos de viagem (editora Terceiro Nome, 2003). Em geral eles chegam ao público metamorfoseados nas páginas de mais de três dezenas de livros que Matuck ilustrou e escreveu, a maioria voltada para o público infanto-juvenil, entre eles clássicos como Plantando uma amizade (Studio Nobel, 1996), Tudo é semente (Companhia das Letrinhas, 1993, com Carlos Matuck) e A sumaumeira (Ática, 1993). O primeiro título faz
parte de sua experiência de cultivo de árvores em São Paulo. |